Até onde a carne aguenta?

Por que a gente se espreme, arranca a pele e vai até o osso? Por que não paramos, pausamos, reduzimos?

Esses eram meus pensamentos enquanto eu conversava com uma americana por volta de 50 anos que trabalha limpando casas no Texas (USA) e ela me contava com orgulho que fez uma cirurgia no coração, colocou três stents e quatro dias depois – um domingo – pôde ir trabalhar.

Diante do meu olhar assustado, me tranquilizou avisando que levou a filha para ajudá-la.

Os inseguros olhos azuis teimavam em contradizer a certeza de que está emocionalmente pronta para a próxima cirurgia que precisará realizar em alguns meses, ainda mais complicada.

No corpo franzino, a pele, que aparta e esparrama, nega o preparo fitness em que ela aposta sua recuperação. “Não parece, mas vou sempre à academia”, revela timidamente olhando o contorno dos braços. Sei que é real, mas também o é que falta carne, falta base, falta estrutura.

Falta o tanto que falta para mim, para você, no corpo, na pele e na alma, o tanto que falta para tantas mulheres a quem só resta ser forte, até não ter mais o que restar.

“Sei que é difícil”, digo a ela. Nossos olhos se cruzam e não há mais barreira de idiomas, de culturas, fronteiras.

Somos duas mulheres tão diferentes e tão iguais, tão distantes e tão proximas.

Ela me retribui com um sorriso.

Não há mais necessidade de palavras. Onde deitou a dor, não cabem amenidades.

Podemos nos permitir apenas observar a manhã passar.

Vivi Griffon

Imagem que ilustra esse texto: foto da escultura Mulher no Jardim, de Pablo Picasso, tirada por mim no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em abril de 2025

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