
Nessa fase da nossa vida, já tão repleta de memórias e sonhos, nem sempre é fácil encontrar espaço para o novo entrar. Novas ideias, novas culturas, novas crenças e, por que não, novos amores…
Desde que saí do Brasil pela primeira vez aos 50 anos para virar nômade, esse tem sido um exercício constante. Me permitir entender que há muitas formas “certas” de fazer a mesma coisa. Que há jeitos diferentes que podem ser mais convenientes que o meu.
Lembro que no primeiro retorno ao Brasil, disse ao meu filho: “Esquece tudo que eu te ensinei, que eu falei que era certo. Mantém os valores, mas aquelas coisas bobas do dia a dia que eu insistia que você fizesse como te ensinei porque foi como eu aprendi? Esquece!”
Eu queria abrir espaço na mente e coração jovens dele para o mundo que o espera. Para que ele possa escolher por si diante da riqueza de culturas e possibilidades, sem medo ou culpa.
Estava pensando em compartilhar esse tema aqui no ‘por dentro é diferente’ quando uma querida amiga me contou da felicidade de abraçar uma religião diferente da qual ela cresceu e em que aprendeu desde criança que aquele era o único caminho — e de como foi difícil quebrar todas as resistências incrustadas em sua alma por anos para poder se encontrar na fé. Revelou que a descoberta está sendo libertadora.
Pode ser que o novo chegue e se encaixe ali, em um espaço que ficou esquecido entre as memórias e aprendizados.
Às vezes, se queremos que o novo faça parte da nossa vida, precisamos ter a coragem de nos despedir do que não nos cabe mais, não nos serve, não mais nos pertence — e talvez nunca pertenceu — para deixar o desejado novo entrar.
Nessas minhas andanças pelo mundo afora, tenho tentado fazer essa limpeza periodicamente — nem sempre é fácil, confesso, mas tem sido recompensador abrir esse vão para garantir que o novo encontre em minha mente e meu coração abrigo e pouso.
Vivi Griffon
Foto: Lisboa, Portugal. Setembro de 2022