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Diplomata, aeromoça… as respostas à pergunta “o que você quer ser quando crescer?” sempre tinham um destino por trás: conhecer o mundo. Um dia, aos 10 anos, cheguei em casa com um folder na mão e um pedido pouco comum para uma garota da minha idade: estudar inglês na nova escola que abria a duas quadras de casa e oferecia uma promoção para as primeiras matrículas. Minha mãe estranhou, mas, como sempre, me apoiou.

As aulas eram aos sábados de manhã, justamente quando minhas amigas iam para a praia, parte da nossa rotina de fim de semana. De biquíni e cadeira de praia na mão, elas tiravam sarro de mim enquanto eu seguia com minha mochila. Mas eu estava feliz com a minha escolha. Adorava estudar inglês. Lembro até hoje do meu primeiro professor, Caetano, que havia morado um período na Inglaterra, chegando de bicicleta.

Estudei Jornalismo, construí uma carreira, escrevi livros, casei, tive um filho, me divorciei, trabalhei muito. Viajei com meu filho pelo Brasil, menos do que gostaria, e cheguei a planejar um ano de estudos fora quando ele estava no colegial. Não aconteceu. Entre uma coisa e outra, aquele antigo desejo de conhecer o mundo foi ficando tão distante que, por muito tempo, simplesmente esqueci dele.

Até que a vida mudou de novo.

“Ninguém sairá da pandemia como entrou” era uma frase repetida naqueles dias difíceis. Vi pessoas queridas muito doentes, outras partindo, e senti na pele que a vida é um fio.

Foi quando meu sonho adormecido me acordou com um solavanco: era hora de ir. Com o inglês enferrujado, minha primeira ideia foi estudar por um ano em Portugal. Durante as pesquisas, descobri uma expressão que nunca tinha ouvido: nomadismo digital.

Meu coração disparou quando entendi que, da mesma forma que estávamos trabalhando de casa, isolados, eu poderia trabalhar de qualquer lugar do mundo. E, pela primeira vez, tive a sensação de ter encontrado um jeito de viver que realmente combinava comigo.

Filho adulto, psicólogo, a sensação de dever cumprido. Comecei a me desfazer de tudo: móveis, eletrodomésticos, papelada, livros, objetos. Passei dois anos me preparando, até que tudo de que eu precisava para viver coube em uma mala.

Em setembro de 2022, aos 50 anos, fiz minha primeira viagem para fora do Brasil. O primeiro destino foi Portugal. Depois vieram Espanha, Marrocos e outro sonho de menina realizado: comemorei meu aniversário de 51 anos em frente à Torre Eiffel, em Paris.

Entre retornos ao Brasil e novas viagens, passei por 14 países no primeiro ano. Mais do que visitar lugares, comecei a experimentar como era viver neles: fazer mercado, trabalhar, cozinhar, caminhar sem destino, conhecer pessoas, mudar planos, me perder e resolver os inevitáveis perrengues pelo caminho.

Já são mais de 30 países agora. As viagens pelo mundo, que eu imaginava desde menina, viraram parte da minha vida e tenho descoberto quanta vida ainda pode acontecer.

Ainda há muitos lugares para conhecer e histórias para contar.

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