Enquanto ainda podemos ter preferências

No silêncio imponente do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, me deparei, sem esperar, com o túmulo de Fernando Pessoa. Não havia buscado por ele; curiosamente nunca procurei saber onde jazia meu poeta preferido. Visitei a casa da sua vida, seus cafés, suas ruas na capital portuguesa. Mas não me ocupei de sua morte.

E ele simplesmente estava ali no meio do corredor — discreto e, ao mesmo tempo, em destaque. Diferentes emoções me invadiram. Foi um reencontro com um velho amigo, daqueles que nos entendem sem que seja preciso dizer muito. E, talvez por isso, as palavras dele me vieram como um sussurro antigo, do tipo que fica guardado na alma: “Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências” diz ele em um poema conjecturando sobre sua morte.

Pensei, então, em quantas vezes nós, mulheres, vivemos como se também já não pudéssemos ter preferências. Como se escolher — de fato — algo por nós fosse um capricho, uma ousadia. Vivemos aceitando o que nos oferecem, o que dá, o que cabe, o que sobra. E vamos nos tornando invisíveis até para nós mesmas, como se a existência fosse feita apenas de presença para os outros. Como se só nos restasse — como disse o poeta — “O que for, quando for”.

A autoanulação feminina tem raízes profundas, ecos que nos calam, lembrando que mulheres não devem — nem precisam — escolher demais, querer demais, sonhar alto demais. Quantas vezes me vi nesse lugar, me deixando para depois, acreditando que preferir algo por mim era egoísmo. Já pensei que felicidade era coisa para “depois”. Depois que os filhos crescessem. Depois que a vida acalmasse. Depois que alguém me dissesse que eu podia. Quantas de nós, mulheres, vivemos como se não tivéssemos direito a ter preferências, abrindo mão das próprias vontades e desejos em nome da família, da carreira, da expectativa alheia?

Diante do túmulo do Pessoa, do poeta que pediu para ser esquecido, percebi a ironia do destino: “Quando a erva crescer em cima da minha sepultura, seja esse o sinal para me esquecerem de todo” escreveu — e ali estava reverenciado. Eu, que tanto precisava ser lembrada, muitas vezes me esqueci.

E a inevitável pergunta ressoou em mim: O que você ainda espera para ter preferências?  “Quando já não puder ter preferências“, não será mais tempo. E agora, enquanto ainda podemos?

O momento de ter preferências é hoje

Não depois dos filhos criados.
Não quando for mais conveniente.
Não quando sobrar tempo.

Quero escolher enquanto é possível fazer escolhas. Enquanto ainda houver caminhos para serem trilhados. Não quero deixar para ter preferências quando já não puder mais tê-las.

Antes que a erva cresça sobre o que fomos, que floresçam em nós as escolhas que ainda podem ser feitas.

E você, o que ainda espera para ter preferências?

Bons voos! ✨

Vivi Griffon

(*) Referências e trechos em destaque de poesias do heterônimo Alberto Caeiro, do poeta português Fernando Pessoa, que você pode ler aqui: Quando vier a Primavera e Quando a erva crescer em cima da minha sepultura

Foto: túmulo do Poeta Fernando Pessoa, no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, Portugal. Março de 2025

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