
Era uma terça-feira como outra qualquer — ela lembra muito bem, porque olhou no calendário que mantinha na parede da cozinha, trocado anualmente a cada primeira semana de janeiro. Estava chegando aos seus 50 anos e naquele dia decidiu que não ia mais pedir permissão.
Começou horas depois, quando disse “Não” para a colega de trabalho que só lhe procurava para trocar o turno e se beneficiar nos feriados. Dali em diante não pediu desculpas por dizer “não posso agora”. Nem se justificou por não atender o telefone. Não pediu autorização para fazer o que bem entendesse, agir como quisesse, nem para dizer o que pensava.
Ninguém entendeu muito bem. Ela também não entendia por que passou tantos anos buscando aceitação.
“Quando foi que eu comecei a querer agradar a todos?, se perguntou. Logo percebeu que não importava: o que contava era aquela terça-feira, em que decidiu que dali para frente, não mais.
Não mais tentar caber em pequenos espaços, não mais sorrir sem vontade ou motivação, não mais vestir o que era conveniente, não mais colocar os outros sempre na frente de si mesma.
Um dia, a alma estala… A dela estalou naquela terça-feira, registrada na folhinha. Ela percebeu que não precisava mais ser compreendida — precisava ser inteira.
Chega uma hora em que você tem que escolher: agradar o mundo ou viver em paz com a própria alma.
Não importa se você tem 50, 44, 61 ou 72. Sempre há um dia em que algo dentro de nós diz: chega. Chega de se silenciar. Chega de se diminuir. Chega de atrasar o próprio destino.
Alguns a chamaram de louca. Teve quem acreditasse que era uma fase, que logo passaria. A opinião geral estava dada — o velho refúgio para mostrar qual deveria ser o lugar dela: crise da idade.
Ela não se importava. A cada dia ouvia menos o burburinho à sua passagem. Já não percebia as caretas, os narizes torcidos, as fofocas de meia boca.
Pararam eles, ou parei eu de notar?
Também não importava; nada disso a alcançava mais, ela já estava longe, distante dali, porque não pedia mais permissão para passar, para usar, para ocupar seu lugar. Não era mais aquela que desviava da calçada para a rua quando a turma vinha animada em sentido oposto ocupando todo o lugar. Não era a que se calava, interrompida por alguém que queria falar. Também não cabia mais no papel da que era a convencida a mudar de opinião para diminuir frustrações.
Ela sabia que não era um grande ato de rebeldia, mas sobre cada pequeno gesto de se escolher. Não eram as grandes decisões, mas as escolhas diárias.
Ali, naquele instante simples e silencioso, reconquistou sua própria liberdade.
Foi assim, numa terça-feira qualquer, que ela parou de pedir permissão. E começou a viver.
✨O mundo não vai abrir espaço. Mas você pode abrir suas asas.
Bons voos! ✨
Vivi Griffon
Foto: Atibaia, Brasil. Novembro de 2023